domingo, 29 de março de 2009

Ato de tocar

Ao toque de meus dedos sobre o piano,
Discorro em fluidez involuntária
E cerro meus olhos na melodia,
Que embalsama minha alma em fantasia
E funde meu ser ao ser amado

Em notas graves, agudas e sentidas,
Minhas mãos percorrem o corpo enfeitiçado
De um objeto que transcende a agonia
E invoca, na noite cálida e fria,
Os sons celestiais e divinizados

Sonata de Mozart entre meus dedos,
Corpórea prisão que me impede
De vibrar em etéreos anseios,
Que invadem meu mundo por inteiro
E lançam-me da partitura aos movimentos

Sufoca-me o ar sob meus seios,
Translado desse mundo a outro mundo,
Entorpeço a mente com silêncios...
Trago nas mãos uma harmonia cósmica,
Tenho nos ouvidos, os beijos das notas...



[Aurora, as 04:33 da madrugada de 21-08-08]

quinta-feira, 12 de março de 2009

Existência

Semeei: colho o fruto de veneno.
Entre o pó da verdade para o bem
E a montanha do prazer para além
Da extensa amplidão desse terreno

Meu nome, kharma hirto já condeno
Aos braços espantosos d’um refém
Que lança a vida, como ninguém,
Nas águas da esperança d’um aceno

Neste corpo frágil conduzo lasso
A alma na idade da inocência
Que brotou num antigo rio escasso

O néctar de uma sede na ardência
Das inquietações que soam no espaço
E que trago nas milhas da existência


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No poema há elementos que formam a existência humana segundo certas doutrinas budista, hinduísta e jainista, além de Teosofia e Misticismo.
Alguns elementos como:
‘Fruto’ e ‘néctar’, significando a origem de algo.
‘Terreno’( a terra), ‘água’, ‘espaço’ (o ar), significando elementos verticais, horizontais e astrais que, juntos e organizados, podem fazer o homem se tornar um sábio ou ‘super-homem’.
Além de outros, o ‘kharma’ que significa a conseqüência das ações humanas acumuladas de existências passadas e da existência em que se vive.

Remos

Meu silêncio, por entre mil perguntas,
Vai firmando o que em mim sempre motiva...
Mais sincero, mais sutil e mais forte
Na razão minha, vejo o que deriva:

No prazer que parecia satisfeito,
Criou-se alma para amar assim ardente
E tudo se moveu em contentamento,
Despertando tudo que agora sente:

Sensação altiva, incontrolável,
Anima a vida e sem notar a entrega,
Porém como veio, volta de repente
E tudo molha e assim se desprega

Co’o quem cativa no calor diurno
E na frigidez da lua deixa escória
Os preceitos d’um ledo desengano
Nos remos inquebráveis da memória...


[Aurora – 18-10-08, termino as 01h05min – madrugada]

Terra Morta

O mar em seu tributo se unira,
Ao leito d’um virtuoso céu em fuga.
E assim a vida em riscos se atira,
Ao clima da moral que o bem refuga;

A natureza em vícios se iguala,
Ao rio que cava em um leito escuro,
Dos homens frios que “correm” na resvala;

Maldita víbora que no seio suga
O gozo dos princípios e respira
O fulgor da carne fria que debruça,
No ermo precipício que inspira...

Na terra morta desse vale impuro
Há de emergir, da desgraçada vala,
A tez virtude num humano puro.

Selva de lobos

Só, como a idéia única
De um mundo que se acaba,
Erma, boiava intrépida,
A arca de Noé;
Pura das velhas nódoas
De tudo o que desaba,
Leva no seio incólumes
A virgindade e a fé.
- O dilúvio - Machado de Assis



Lança em precipícios mais rasgados
Todas as lembranças bem dolorosas,
Pois no porvir há coisas espantosas,
Que quaisquer bons laços ficam frustrados;

Selva de lobos cresce ano a ano
Sempre sanguinolenta e esquiva
Sobre a vida, em futuros danos...

Segue à sorte, todo nome herdado,
Entre serpentes e damas manhosas,
Cheias de doces, palavras poderosas,
Gentis varas, em tronco definhado;

A raça humana sem fé se priva
Na fria fortuna urda dos enganos,
Onde se vende carne, ‘stando viva!


[10-09-2008]

Ritmo corpóreo

Ergui-me nas costas d’um sol surgido
No alto monte das terras do Oriente.
Doce canto entoava cautamente
Qual sereia proferindo no ouvido;

Meu olhar ao sol aquece e conforta
Os membros dos altivos mareantes,
Na terrena tez o lívido semblante
Da cor que amor estima e entorna

Meus véus rasgava, o ventre desnudando
Na dança que me move poderosa,
Sorvendo os sons da tumba portentosa
Que alçava-me o corpo transpirando

O cheiro do prazer inebriante
No enlevo da cintura em arco-ponte,
Volvendo-t’em mim junto a fria fronte,
Pousando nos teus lábios meus descantes...

Sucumbidas

My life
You electrify my life
Lets conspire to ignite
All the souls that would die just to feel alive
- Starlight - Muse




Fizemos promessas, agora, doloridas;
Pintamos o futuro com nossas cores preferidas;
Vestimos as estrelas com nossos olhos;
Cobrimos o destino com nossas mãos juntas;
Sentimos o prazer de viver em segundos...

Expectativas! Expectativas! Expectativas!
Lembranças confusas e evasivas...
Condenadas na melodia dessa música;
Reveladas na carência dos teus toques;
Esquecidas nas palavras que feriram;

Arranhões, quedas, desavenças torturantes...
Estrelas cadentes apagadas em instantes,
Traições perdoadas, incompreensões relevadas
No amor que te dediquei, assim, te curando,
Nas noites que te velava e tu me abandonando...

E agora? Minha vida... Tua vida...
Separadas... Dissolvidas...
Julgadas pela perda da paciência;
Forjadas no calor das inconseqüências;
Sucumbidas nas lágrimas do tempo...


{7-09-2008}

Súplica

Quero que o amor seja meu norte
Sendo entre céu e terra potentado
Será da doce ânsia amparo forte
Podendo ser sempre elevado

Por quem lançar-me no celestial intento,
Por quem encantar-me dando a vida
A caminhar comigo sem sofrimento
Por ti, por mim e à toda parte repelida

Donde não terá lugar para a inveja conduzida
Pelos estridentes gritos escutados
Verás que a alma ficará na frágua ardente

Saciando a torpe sede induzida
Dos infernais assentos atordoados
Na suplica tortura de minha voz plangente


(Aurora, 28-05-08)

Flecha élfica do tempo

Ao querido Paolo :)

O tempo que bafeja suave vento
Tem um cheiro de amora que atravessa
Um dia após o outro, sem nenhuma pressa,
Pelo ar que circula um doce alento;

Vem da encosta feito um passarinho
Que na rama engenha sua morada
E por entre os espinhos faz seu ninho

Mesmo que a floresta seja espessa,
Mesmo que o rio siga sempre mais lento,
Sua força vai além do pensamento,
Como o som que logo se arremessa

D’uma flecha élfica encantada
De mágicas, sonhos e murmurinhos
Quando saúda os cantos d’alvorada.


{Aurora...}

Refúgios

Àquele pelo qual guardo um carinho imenso e compartilho todos os refúgios de mim mesma :)

Dos campos estelares às figuras,
O céu assim eu vi voraz e submerso,
Com as cores tingindo, pelas alturas,
Os sonhos psicodélicos do Universo;

Eclipses das horas tenras transgredidas
Nos transes ocultos dos teus mistérios
Pairando nos devaneios da tua vida,

Refletindo nos meus olhos a luz pura
D’um Sol que traduz símbolos em versos
Com toda arte que o tempo transfigura
Os pomos juvenis d’um mundo perso.

Portanto, sob teus pés a ‘strela entoa
A sutil dissonância dos hemisférios
Que forjam os refúgios das tuas mágoas.


{Aurora...}

Agora, pertencemos...

(Ao amado Bruno)


*Jandé kañemýra, jandé rausúpa,/
sekó poxý suí jandé rejýia.



Vi marchando um cavaleiro à peleja
Travando luta, enleiando-se no combate
E até pedi aos céus, ó senhor, que o proteja
Dos tormentos e das lembranças do embate

Nas pueris memórias é que te tenho
Trovador gentil dos campos estrelados;
Nas palavras já amadas é que te venho
Com alma, mente e corpo já resguardados.

Vi o tempo passar em tuas cavalgadas
Perdendo o caminho de quem mais te ama(va)
Deixando as esquadras entre nós usadas,
Chamei, supliquei, mas o tempo o chama(va).

Pertencemos ao eco de um lugar medonho
Em que o verso entre as almas é tristonho.


**Erehapota


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*Trecho retirado da Cantiga tupi-guarani, em que significa: Amando-nos, a nós condenados,/desviando-nos do mal.
**Em tupi-Guarani: Adeus

Meu brilho de safira

( Á minha amiga, no qual seus anos de vida são os meus também, Elizandra :)

Quando, em mim, nasce um brilho de safira
E torna a vida uma melodia suave de lira,
Os meus ouvidos escutam a brisa de um vento...

Vento que se propaga na freqüência envolvente
De tua voz amiga, num badalar surpreendente
Dos anos de tua existência neste momento...

Momento que carrega o carinho embriagado
Desta tua amiga que contigo, lado a lado,
Dissolve os males e vai, na alvorada, crescendo...

Cotidiano/Mudança


( à minha amiga, que conseguiu vencer seu vício, seu medo, sua fraqueza. Adoro-te, Suellen!)


Eu não quero mais levantar de manhã cedo,
sempre no mesmo horário,
escovar os dentes logo em seguida,
instintivamente abro a porta da frente,
tento fugir da minha vida,
tem algo nela que não me deixa sorrir,
quase sempre evito a foto sobre a mesa,
e sei que ninguém aqui vai notar
que eu jamais serei a mesma.

Vibrações

(Ao querido Aton Haber)


Sinto uma vibração diferente
Que envolve meu ser maravilhosamente
Sinto que do pó renasce um sol derradeiro
Que de pouco a pouco irá se tornar inteiro

Dentro de mim há interrogações
Dentro de mim há vibrações
Que incrivelmente invade tua vida
Que intensamente invade a minha

Como um olhar que o sonho envolve em encanto
Como um soar de sino por um campo
Como quem brinca na beira d’água...

Se meu viver ti faz encanto
Viverei sem derramar um pranto
Mesmo que se apague a lembrança d’água...

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Vibrações II

Oh, vento frio desta noite!
Ouves os apelos meus, do meu peito morto!
Ora és meu amigo, oras trás um triste desencanto.

Minha alegria já se foi com tuas palavras
Derradeira e pobre sina que em mim plantei
Dos meus sonhos, oh, noite és secretaria antiga...

Que de mim nasça uma armadura
Que não penetre sequer um sonho de amor
Que se vá o Sol, que se vá a palavra verdadeira
Que se vá a mitologia vã!

Ah! Minhas infelizes palavras que de tão verdadeiras
Afastou-me um amor maduro
Afastou-me um sorriso tremulo
Afastou-me a esperança de realizar meus desejos

Tua Razão, oh vento!
É faca que corta meu coração
É som que rasga as nebulosas lembranças
De dias felizes

Se minhas palavras não rimam
É porque estou sem rima
Sem alguém que em mim se ria
Sem ter um pulsar no coração...

Lobo solitário

(Ao querido Luciano)


Teu uivo cobre a noite,
tudo se volta à tua sonoridade,
tudo se cala e te ouvi
num soar de alma na obscuridade...
em que algo te eleva
e te segura
que te atormenta
que te seduz...
- será a lua?

Começas a transpor teu ser
vives para o luar sereno
o azul começa a fazer
de teus passos um alento

Cobre o chão com o imaginário
das luzes condenadas
a vagar pelo mórbido cenário
das sombras atordoadas
de um lobo solitário

Seguro

(A um amigo)


Quando te olho sinto que sei o que faço...
Que sei onde piso...
Que encontrei um amigo!

Quando te ouço com o coração atento
Sinto que te conquistei um abrigo
Sinto que te dei alento...

Quando te falo de mente aberta
Digo que sem ela
Não temos nada e nada temos dela

Apenas há o que se olhar
Há o que se ouvir
Há o que se falar

Já que somos frutos de um amanhecer sem dono
De um florescer sem flores
De um transcender sem cores
Apenas com a sensação da aurora do dia como um todo!

Respirar

(Ao Fernando)


Quando o vento tocar o rosto teu,
Quando a brisa acariciar os teus cabelos,
Quando a gota de chuva escorrer entre teus lábios,
Eu estarei aí...
Eu estarei feito o vento que te conforta,
Estarei feito brisa que te anima,
Estarei feito chuva que te refresca,
Porque eu te Adoro...
Adoro como a fumaça do incenso meu ao tocar suave em minha face,
Adoro como um sorriso tímido à luz de um beijo apaixonado,
Adoro como quem adora combinar o friozinho, mais lençol, mais carinho,
Porque a melhor parte de adorar alguém
É quando isso se torna independente,
É quando o adorar se torna involuntário,
Feito a minha respiração,
Feito o pulsar de vida no coração,
Assim, como sinto agora...
Sinto a distância cair pelas terras dos sonhos,
Sinto o sonho de te amar mais real do que nunca,
Sinto o brilho dos teus olhos incandescer minha alma como um farol
E sinto, que o que sinto vai ficando somente meu...
E me entristeço...
E me refugio em pensamentos
E me obrigo a conviver comigo
E me sinto só, mais uma vez...
Mas não me arrependo de ter ‘respirado’...


[Aurora – 10/10/2008 – as 23:39]

Meus/Teus versos

(Á meu querido Moonlight...
1+1 equivale a ][ (infinito)



Ah, meu querido luar particular...
Sei que sem os teus versos
Meus versos não se definem
Sei que sem tê-los os meus não são versos
São rimas perdidas
Em vendavais dispersos

Oh, meu doce poeta...
Sei que sem tua poesia
Minha poesia não existe
Sei que sem ela não sou
E nem o nada sou
Apenas não sou nada...

Sim – Adormeçamos as noites
Com nossos versos ditosos
Com o encanto dos sonhos
Com o balanço das sonoridades

Não – quebraremos as noites
Com a rosa da realidade
Com a flor da desventura
Com o amargo do mundo

Oh! Como gostaria de poder voar contigo
Numa noite estrelada
Galopando em teu unicórnio
Pelos infinitos mundos
De nossa mais pura e perfeita ilusão
De nosso mais ingênuo e transcendental amor

Perturbaremos os pólos gelados do universo
Quebraremos o silêncio dos Deuses
Chamaremos a atenção da vida
Riremos dos diversos astros juvenis
Dançaremos junto às estrelas

Entraremos em dimensões supra-secretas
Tudo em prol de ti ver sorrir
De ti ter comigo, num segundo de eternidade...
Pois meu encanto se faz encanto
Com o teu encantado jeito de me encantar...

Riso de mim mesma...

(Ao querido Pedro)


Devo lhe contar, Pedro, algo que não é segredo
Que em meus versos nada guardo, apenas transpareço,
Posto que eu não tenho sequer algum ledo medo;
De sentir o que sinto e verbalizar o que suspiro;

O que suspiro é vão, é imaturo, um mistério carente
Em que derramo meus sentidos ingênuos e inseguros,
Mas que as máscaras da verdade fiquem, sim, rente
Ao meu pensar e no sentir sonoro dos versos que te tocam

O que te toca é mais feliz, Pedro, do que eu mesma
O que te olha é mais gentil e, de certo, mais lindo
O que te reluz é um brilho do riso de mim mesma...

Teus desejos

( Á Elini )


Seguem pelo ar desejos d’uma vida
E brincam de sonhar feito criança,
Cobrem com perfumes da esperança
E vão além sombras d’uma dúvida;

Seguem por caminhos da aventura,
Viajam nas asas da felicidade,
Bebem água clara da liberdade
E florescem numa manhã mais pura;

Pegam carona com o livre vento,
E a alma vibra em todos os segundos,
Como quem se atira no contentamento

Dos sonhos mais belos e profundos,
Fazendo com que todo pensamento
Deite nos braços quentes de um mundo.


[Aurora – 26/10/2008]

Eu sinto...

(ao meu grande amigo, Tony)


Nossos corpos já não marcam mais,
As letras já não juntam como antes,
O sono agora não nos satisfaz

Deixamos, por querer, de nos importar
Com os constantes gostos de imitação
De tudo que podemos, enfim, comprar
Para contornar a vida de estimação

Nos sonhos, já deixamos de acreditar
Não há mais coragem em harmonia
Então não lembramos mais de olhar
Longe do espelho, o rosto de agonia

Talvez haja somente tristeza em saber
Que a mente é falha no que não se vê
Que nosso presente só aparenta ser
E a memória é viva só no que se crê

Acreditamos sim, que a cada momento
Toda a vida está apenas no alcance ótico,
janela do carro e chão em movimento,
Mera condição do sentimento caótico

Sentidos, sem sentido de que amamos
Na rota de um caminho já direcionado
Temos medo de ir além do “convenhamos”...

Carregas a mescla das cores ao vento

(à minha irmã, minha íris)

Carregas a mescla das cores ao vento
Dos teus anos a irradiar tua vida
Emergindo das águas no momento
Na sina da juventude nunca esquecida

Tuas quimeras cheias de verdades
Descansam nas mãos das nuvens violetas
Onde teu riso sempre deixa grandes saudades
Nos lugares que passas e te chamam “preta”

Tua alma, nunca negra e silenciosa
É riqueza que transborda auroras
No anseio da vida íntima e misteriosa

Sol nascente da alma minha
Fazendo rastros de risos no passar das horas
Transcendendo meus suspiros, oh pirralinha!

Jornada

Da minha vida em certo trecho da jornada
Achei-me numa cruel enfermidade...
Perdi o verdadeiro sentido de minha caminhada,
Deixei os sonhos na mocidade...
Talvez a morte íntima seja a minha salvação.
Sobre as ondas das dúvidas incertas,
Debrucei meus doces suspiros de ilusão
Livrei-me das tristes quedas,
Pus-me a destruir a sombra
Para, já desperta, despertar a luz
E a salvar a pobre honra
Da alienação que me seduz
Tão pouco sei de meu real passado
“No céu a aurora já resplandecia,
Subia o sol, dos astros rodeado,”
Meu mestre interno já dizia.
Vã fúria que o meu peito se enchia
Desgosto mórbido o coração sentia.
Esperança aquela um dia minha
E que agora, sob tortura das agonias,
Passa a cavalgar por entre campos, obscura e perdida.

Ébrio momento

Tão veloz pelo mar ao longe deslizando
Num belo vôo rasante de ave respeitosa.
Curiosa, pasma, vi seu brilho refratando
Cores celestiais, nas ondas silenciosas;

Lançando seus anseios errantes aos ventos,
Todos então alçando as mãos, erguendo a fronte,
Para que os desejos entrem em movimento;

Deixando cair o medo num volver de asas,
Fulgente, a lançar-se alva ao céu ditoso
Alma minha sedenta, livre feito brasa,
Cerrando fogo por caminho venturoso

Em nuvens áureas dos meus breves pensamentos,
Eterna pluma dourada do horizonte,
Onde pousam sonhos neste ébrio momento...

A flauta

Subia-se na árvore, vez ou outra,
Ligeira, com pressa a procurar
um galho forte para sentar.

Flauta encostada na boca,
Serravam-se os olhos sutilmente,
Sem mover-me a toa,
Ficava em êxtase latente.

Sem poder sentir o tempo,
A manhã clara passava
E crescia o que sonhava:

Já deixa de ser uma criança
Segurando sua flauta,
Passava a ser vibração
Que na sua música ressalta.

Imagem de Jano

Na trilha do penhasco sobranceiro,
Espaça luz do sol então difundia,
A imagem de Jano* que me tolhia
O tempo tão mortal e derradeiro;

Mas em mim a noite segue ao dia,
Passado, que nas mãos segue ligeiro,
Futuro, é um gentil mensageiro
Do imenso mistério que te porfia;

Lanço-me à sorte em teu reinado,
Ao passo que teus olhos imperfeitos,
D’um tempo rotineiro que rejeito,
Abrem o caminho já desvendado;

Acolhe e protege-me no peito
Do teu destino frio, divinizado
E tira-me o peso, tão cristalizado,
Dessa vida sem rédeas ao teu lado.


[Aurora... 23-08-08 ]



*Jano: nasceu como mortal. Quando Saturno foi expulso da Grécia por Júpiter e seus irmãos, Jano o acolhe. Saturno, agradecido, deu a seu protetor o poder de ver o passado e o futuro. Após a sua morte foi divinizado e tornou-se o Deus das portas, dos caminhos, do início e do fim de todas as atividades. Muitas vezes era representado com dois rostos, um olhando para o futuro e o outro, para o passado.

O véu


Aquele peso em mim - meu coração.
Fernando Pessoa, 1932


Nas terras babilônicas do tempo,
Uma fera se esconde ao sol noturno,
O luar acalma, entorpece o sangue,
E tudo flui nas sombras do momento.

Solta-lhe da boca um véu vermelho,
Ensangüentado p’la própria matança,
E o cobre com suas lágrimas e beijos...

O semblante abatido rompe-se em ais...
E nos ares, choros tornam-se livres.
A morte já se torna breve, indolor,
E o peso de seus membros inexiste

Pelas encostas da vida que segue
Em direção a um pôr-do-sol sem vida
Por dentro da fera incompreendida;

A porção d’alma, todos os amores,
‘stavam no véu arrancado do peito
Que a terra livra dos cruéis temores
Guardando-o forte num amor eterno

Mísera mente mórbida, maldita!

Mísera mente mórbida, maldita!
Herança metafísica do ser,
Desperta um masoquismo d’enlouquecer
A vida, tão ingênua mãe aflita;

Vem beber as frias lágrimas d’um vício,
Com gosto de necrose e vinho tinto,
Da dor animalesca que não sinto
Nos nervos torturantes d’um hospício

Que brota em minha mente decadente
E faz dos neurônios irmãos dementes
Das células, etéreas filhas mortas,

Sujeitas à prisão dos pensamentos,
Na lógica semeada num lamento
Que tranca as saídas das felizes portas...

Permita-me

Permita-me que eu feche teus olhos
Para que te enlace na verdade minha
De te fazer sentir tudo em movimento
Dentro de um sonho que na noite caminha

Permita-me que eu faça tu enxergares
As montanhas mágicas dos instantes
No balanço de todos os meus mares
Que desmancham tuas terras distantes

Permita-me que meu silêncio te envolva
No toque das minhas mãos em teu mundo
Exalando ares, cores e murmúrios
Que aflora ao suspirarmos profundo.

Dizer-te...

Hei-de, Amor, dizer-te agradecida
Pelos versos meus que te enternece
No reino das palavras que te sou querida
Em casto olhar que te fito e me estremece

O coração a rogar-te uma vida
Junto a ti, todo o mal padece
Embriagando-me nesta requerida
Passagem dos sonhos que nos obedece

No seguir das horas matutinas
A fugir alvas à sombra da coberta
Em volteios das oscilações marinas

Para um plano mar, que jaz distante
Inclina-se pela planície deserta
Amparando-nos na imensidão avante



[Aurora - 28 de junho de 2008]

quarta-feira, 11 de março de 2009

Re-criar-se

Arrancar da mente o Sofrimento,
A lógica incerta, o pensamento!
- E criar, sem sair da solidão,
O ritmo exato no pulsar do coração...

Dançar nos passos do contentamento,
Guiando a noite com o sentimento!
- E criar, sem sair da solidão,
A lua, a cor, o brilho da emoção...

Flutuar na terra em febris volteios
Como nevoa a vagar nos anseios
Dos que em mim nascem a cada nota

Dos que em mim soam intensamente
Na essência mística do Oriente
Que na minha estranha alma brota!

FERA

Quando o tempo de perder me chega
A mente à altura não sobe e receia
Rebentando em prantos e a tristeza me enleia
No acaso que a fera assim me fez e não sossega;

Pouco a pouco me reveste até largar-me
No silêncio do sol em que a luz me cega
A atormentar a alma até bloquear-me
Da voz fraca da divindade cega

Vejo-me como grão nesse deserto
Que sou ora sombra ora mulher, de certo!
Mas nunca ambas em era retardada

Poetiza estou, tornando a dor uma fonte
Porque não tenho prazer no deleitoso monte
Dos deuses em que há a crença amada.

A surda voz de todos os sentidos

A surda voz de todos os sentidos
Quero tê-la por entre meus ouvidos
Para não sentir paixão ou piedade
No coração que embala essa saudade

Em ter-te como magia da mia vida
Mesmo que signifique a dor da lida
Que nesta tímida alma está presente
Sempre viva como chama ascendente

Da lembrança que separaste de ti
E que em mim tentei, mas não reparti
Criando moradia dentro de mim

Como símbolo de um amor perdido
Vagando pelo tempo embevecido
Na esfinge que te fiz no meu jardim

Cores da tarde

Tarde de tom rosado que encandeia
O horizonte, de papoulas rubras,
Tem um brilho singular que incendeia
Nuvens alaranjadas com figuras

Há no ar um cheiro suave de cereja
Permeando por entre todos os espaços
Como fonte de tudo o que deseja

Luz púrpura do sol palpita e ondeia
Na sensação febril que te seguras
Na mescla das cores astrais que enleia
A forjar o engenho teu nas alturas

Céu violeta roga o bem que proveja
A mim, luz branca tocando teus braços
Neste celeste prisma, a luz te inveja!